Revista Chico é destaque em reportagem da Carta Capital

09/07/2019 - 10:26

Pesquisadores, comunicadores e população atingida busca quebrar bloqueio e denunciar violações de direitos ocasionadas por megaprojetos.

Os megaempreendimentos, mesmo os mais perigosos como uma usina nuclear, ainda são disputados por empresas e diversos gestores públicos em todo o Brasil. Depois de dois grandes desastres, como os crimes da mineradora Vale, que aconteceram na bacia dos Rios Doce e Paraopeba (afluente do São Francisco), fica evidente que é preciso começar a repensar o real valor de algumas dessas obras na economia, na saúde e na vida das pessoas.

“No rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, de responsabilidade da mineradora Vale, em 25 de janeiro de 2019, identificamos mais um caso em meio à epidemia de crimes sociais e ambientais, cuja causa é sempre a mesma: a busca pela maximização dos lucros e a subestimação de riscos. Este paradigma levou à tomada de decisões equivocadas, negligentes e irresponsáveis”, diz trecho do editorial da Revista Manuelzão 84, uma das iniciativas da sociedade civil que vem buscando debater e aprofundar a situação das barragens em Minas Gerais, desde muito antes dos crimes de Mariana e Brumadinho.

Mais um rastro de mortes humanas e ambientais pode acontecer em Barão de Cocais (MG), mas a Vale, o Estado, a mídia comercial e os próprios órgãos públicos de defesa dos cidadãos utilizam informações de interesse privado como se fossem dados oficiais e de interesse público, conforme destacado nesse blog dentro do site de CartaCapital.

Ainda é preciso muito trabalho para mostrar todo o dano causado em Minas Gerais e em todo o Brasil pelas barragens e especialmente para conseguir efetivar políticas que diminuam os riscos de novos acidentes. Afinal, só em Brumadinho, foram perdidas 246 vidas humanas – pelo menos 33 pessoas ainda estão desaparecidas e talvez um número ainda maior de vítimas não registradas.

Diversas barragens ainda causam risco, então, é preciso dizer que os trabalhos estão só no início apesar de a mobilização promovida pelo Gabinete de Crise – Sociedade Civil ter começado a impactar a Assembleia Legislativa de Minas Gerais, que aprovou uma nova lei sobre segurança de barragens no Estado. Mas é importante perceber também como esses crimes têm uma lógica perversa de silenciamento que se repete. Segundo essa lógica, os efeitos sob as comunidades mais distantes territorialmente da tragédia e aqueles que levam maior tempo de impacto são ainda mais invisibilizados e silenciados.

Tragédia provocada

No primeiro episódio da série Treme, o personagem vivido por John Goodman (o professor da Tulane University Creighton Bernette) expõe toda sua fúria ao ser questionado por um repórter de televisão se a destruição de Nova Orleans teria sido um desastre natural: “O que atingiu a costa do Rio Mississipi foi um desastre natural, um furacão pura e simplesmente. Mas a inundação de Nova Orleans foi uma catástrofe causada pelo homem, uma besteira (“Fuckup” no original em inglês) federal de proporções épicas”.


BRUMADINHO: 246 VIDAS HUMANAS PERDIDAS – PELO MENOS 33 PESSOAS AINDA ESTÃO DESAPARECIDAS E TALVEZ UM NÚMERO AINDA MAIOR DE VÍTIMAS NÃO REGISTRADAS

A produção da HBO começa três meses após o Katrina, o furacão que destruiu 80% de Nova Orleans (Louisiana) e causou cerca de 1.800 mortes nos Estados Unidos, em 2005. A ficção parece ter imaginado que após 90 dias as empresas de jornalismo já teriam esgotado sua sede de mostrar a desgraça. Assim, passa a destacar a luta dos moradores de uma cidade ainda destruída pelo rompimento da rede de canais criados justamente para manter segura a população de uma das regiões mais negra, pobre e cheia de riquezas culturais dos Estados Unidos.

Se na ficção os moradores de Nova Orleans têm de lutar durante anos contra as irregularidades da Fema (Agência Federal de Gestão de Emergências dos Estados Unidos, na sigla em inglês), na realidade aqui no Brasil a Vale é quem tem causado várias dificuldades para a reparação dos danos causados à populações de Minas Gerais, do Espírito Santo e até de cidades nordestinas banhadas pelas águas do Rio São Francisco. Historicamente o poder público se omite da sua função reguladora e a empresa foi privatizada pelo governo Fernando Henrique Cardoso.

Na edição de maio da revista Chico, do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, o presidente do Fórum Mineiro de Comitês de Bacias Hidrográficas, Marcos Vinícius Polignano, diz: “O rompimento da barragem de Brumadinho é de responsabilidade da empresa, do Estado e do poder público. Depois de três anos (desde o rompimento de outra barragem, em Mariana), estamos aqui falando o mesmo do mesmo, ouvindo quase que as mesmas declarações, para dizer de uma situação em que estamos enterrando rios e pessoas. É inadmissível que continuemos a fazer esse tipo de política pública”. Erros que continuam a se repetir.

Uma dificuldade para os jornalistas, movimentos e até empresas de comunicação ao lidar com uma questão complexa como são os crimes da Vale é a quantidade enorme de informações que são controladas primariamente pelo poder público e pela própria empresa. Diante dessa situação, diversas iniciativas têm sido organizadas para tentar reunir dados e conteúdos relativos à realidade enfrentada pelas comunidades e propostas de soluções a serem implementadas.

Além das revistas Manuelzão e Chico, outro trabalho importante de acompanhamento e discussão vem sendo realizado pelo Movimento de Atingidos por Barragens. No entanto, existe uma dificuldade de se fazer circular essas informações, já que muitas vezes o conteúdo que chega para as grandes empresas de mídia é gerado justamente pelos causadores de desastres como o da Vale. Outro obstáculo são os interesses que permeiam as gestões públicas e os megaempreendimentos os quais detêm parcerias políticas/comerciais com grupos de comunicação.


MARIANA: REGIÃO FICOU COMPLETAMENTE DEVASTADA

Pensando na quantidade de iniciativas isoladas que têm surgido para contar histórias do Rio São Francisco, o pesquisador André Monteiro, da Fiocruz, idealizou um portal que reúne material audiovisual e fotográfico sobre o “Velho Chico”. Recentemente, um grupo de pesquisa reuniu cineastas e ativistas sociais e ambientais para discutir a curadoria de uma mostra de cinema que será realizada em diversos municípios da região de influência do rio, que já começa a receber os rejeitos da barragem de Brumadinho através do portal Beiras D’Água.

O Beiras D’Água tem uma galeria de filmes sobre mineração e reúne conteúdos audiovisuais e fotográficos sobre as comunidades quilombolas, indígenas, fauna e flora do São Francisco e já tem um catálogo de mais de 300 longas e curtas. O projeto é uma aposta estratégica para tentar difundir temas que são censurados na mídia tradicional, especialmente longe do período de tempo “noticioso” do desastre e das localidades que têm veículos de comunicação atuantes e respeitáveis.

Desinformação

Muito se fala atualmente das notícias falsas, mas nem só de fake news vivem os sistemas de desinformação. Uma tragédia como a de Brumadinho é um exemplo de como poderosas organizações atuam para silenciar questões e evidenciar narrativas que as favorecem. Poderíamos aqui falar de Mariana, Belo Monte, megaempreendimentos como a transposição do São Francisco ou até questões internacionais, pois as táticas de desinformação muitas vezes são parecidas em diferentes contextos.

Reunimos aqui sete características das estratégias de silenciamento e desarticulação das comunidades, em casos como os crimes da Vale:

1- É comum a empresa divulgar apenas os relatórios e informações que lhe interessam, manipular e utilizar paralelamente dados para tomar atitudes que beneficiam a empresa ou gestor público. Existem denúncias de que a Vale chegou a comprar terrenos de vítimas de rompimento da barragem sabendo que nas áreas existiam minérios, porém sem repassar essa informação para as vítimas da tragédia. Leia mais.

2- Sites da empresa, governamentais ou até de alguns veículos de mídia comercial costumam estampar manchetes positivas, que passam uma imagem de solução para conflitos e têm pouco interesse em relatar os longos problemas não solucionados após anos ou meses das tragédias. É muito mais fácil dizer que um número de famílias recebeu indenizações, do que investigar quantas delas ainda não receberam 100% do que têm direito, se sentem injustiçadas pelos valores atribuídos pela Justiça para danos proporcionalmente maiores ou mesmo quais outras vítimas ainda não tiveram direito a nenhum benefício.

3- Em sistemas de mídia altamente concentrada como o brasileiro, a disputa por narrativas costuma ser ganha por quem tem mais força midiática. Se uma empresa de televisão começa a tratar um tema como acidente é natural que as pessoas que assistem passem a usar na sua vida cotidiana e nas redes sociais o mesmo termo. Assim, muitas vezes é silenciado uma outra concepção do fato, que enfoca a responsabilidade do megaempreendimento nas tragédias, como o que preferimos utilizar no título deste artigo, enfatizando a palavra “crime”. Da mesma maneira, se não se fala mais na rádio de um município de quem ainda não recebeu sua indenização, as pessoas tendem a deixar de tratar nas redes e nas conversas dessa temática, é a chamada espiral do silêncio.

4- Na Internet, existe um tipo de silenciamento que pode ser acompanhado no Twitter mas que se reproduz nas demais redes sociais. É comum quando uma hashtag crítica começa a aparecer com destaque nas redes outras serem criadas para anular o efeito da primeira e em alguns casos são utilizados até mesmo perfis falsos para “bombar” o que interessa, por exemplo, a uma empresa ou político.

5- A pressão financeira e até mesmo a violência são táticas utilizadas para afastar lideranças de movimentos sociais. É tática comum dos megaempreendimentos oferecer valores altos para uma vítima e coagir essa família a deixar de ser ativa na reivindicação dos seus direitos. Além disso, são comuns as ações de espionagem: denúncias de ex-gerente de segurança da companhia, em 2013, mostram que a Vale espiona os movimentos sociais e grampeia funcionários – e até jornalistas – para defender seus interesses. Abundam também os relatos de megaeempreendimentos ou mesmo gestores públicos que ameaçam retaliar veículos de mídia, que publicam informações de interesse público, como as pesquisas que têm denunciado a contaminação do Rio São Francisco.

6- A “notícia falsa” é também uma forma de desinformar, mas pode ter muitas formas. Para começar, é preciso dizer que fake news é um termo extremamente impreciso, pois muitas vezes a informação falsa nem tem formato, nem é veiculada por um veículo de jornalismo. Um meme pode ser uma maneira de difamar uma liderança, por exemplo. Recentemente, até fontes oficiais do governo federal, têm divulgado informações extremamente controversas e isso dificulta a identificação desse tipo de estratégia de desinformação.

7- Distorcer ou atenuar uma notícia é uma estratégia comum quando um tema tem muita repercussão e já foi tratado por um veículo de jornalismo crítico ou quando um ativista/movimento consegue viralizar um tema nas redes sociais. Neste caso, é importante estar atento a quem realmente está gerando o conteúdo que destaca questões ambientais e sociais com profundidade e ética.

Você notou que este texto contém algumas sugestões de veículos e conteúdos? O Intervozes está publicando esta série de artigos justamente para denunciar as distorções e também visibilizar as vozes que ecoam as denúncias das populações diretamente atingidas.

 

*Fonte: Carta Capital
*Foto: Eduardo Amorim