Revista 6: Saudade que não chega

28/02/2020 - 14:34

Morto em seis de julho de 2019, aos 78 anos, o baiano de Juazeiro, João Gilberto, começou a meteórica carreira debaixo do tamarineiro da Praça da Matriz. E foi lá, na velha cidade banhada pelo Velho Chico, escutando Seu Vadu tamborilar a caixinha de fósforo, que começou a inventar a famosa batida da Bossa Nova.

Corria o ano de 1977. Após uma noite de farra, quando o dia raiava na ensolarada Juazeiro, na Bahia, sua terra natal, João Gilberto, então já conhecido internacionalmente, fez uma revelação. Na verdade, a Bossa Nova brotara ali mesmo, à beira do Rio São Francisco. E não em Copacabana, como se alardeava por aí. “Lembro-me bem, estávamos vindo de uma noitada – o dia quase amanhecendo. No carro, eu, João Gilberto e o Valdo Macedo Filho, nosso amigo de muito tempo”, contaria Maurício Dias, hoje superintendente da Secretaria de Cultura local. Então, Dias era um dos poucos na cidade que mantinha estreita amizade com o artista que estourara com um disco que mudara a história da música brasileira: “Chega de Saudade”, LP lançado em março de 1959.

Sobre aquela alvorada, afirmou: “Quando passamos perto da padaria Progresso, João gritou: ‘Pare o carro!’. Tinha avistado um senhor: ‘Mas não é possível. É o Vadu Corta Passe”. Sim, segundo João Gilberto revelara aos amigos, aquele sujeito diante deles era o mestre do minimalismo. Fora ouvindo Vadu Corta Passe com a sua caixinha de fósforo que descobrira o jeito miúdo de fazer música que depois aprimorara para a tão famosa batida da Bossa Nova. “Aí descemos do carro e ele foi direto chamando: ‘Seu Vadu!, Seu Vadu!’. O Vadu, que tinha visto João Gilberto havia mais de trinta anos, espantou-se e disse: ‘João, o que você está fazendo aqui?’, como se o tivesse visto na noite anterior. E aí João perguntou para ele: ‘Cadê o samba, Seu Vadu?’. Vadu respondeu que não tocava mais. Insistiu: ‘Só um pouquinho, Seu Vadu, para os meninos aqui escutarem você tocar a caixa de fósforos’.

À sombra do tamarineiro

Também conhecida como a capital do Baixo Médio São Francisco, Juazeiro é berço de gente famosa. Além de João Gilberto, Ivete Sangalo. Fundada no final do século XVII, a cidade fica do lá de cá da margem do Velho Chico, na Bahia, enquanto do outro lado, em Pernambuco, jaz Petrolina. Morto em 6 de julho, aos 78 anos, João Gilberto nasceu em dez de junho de 1931, filho de seu Juveniano, um próspero comerciante, e dona Martinha, dona de casa. Na infância, era conhecido como Joãozinho da Patu. Naquele tempo, o alto-falante pendurado num dos postes da rua do Apolo, conforme contaria o escritor Ruy Castro, no livro “Chega de Saudade”, uma biografia da Bossa Nova, ecoava pela cidade os maiores sucessos da música nacional e internacional, como “Naná”, com Orlando Silva, e “Caravan”, com Duke Ellington.

“O homem não deve voltar ao lugar em que foi feliz”, dizia o velho João Gilberto aos amigos de Juazeiro, quando estes lhe cobravam presença. As ruas da cidade, ali onde eram calçadas irradiavam um calor que esmorecia os ânimos. Na época das chuvas, o Velho Chico costumava alagar tudo, poupando só a Praça da Matriz, onde seu Juveniano instalara a família, numa casa grande e térrea, sempre pintada de fresco. Em 1942, o pai mandou o filho Joãozinho até Aracaju, a capital de Sergipe, para um colégio interno. A Juazeiro, só voltava nas férias. Numa destas temporadas, ganhou o primeiro violão. Quando retornou de vez para casa, em 1945, sem a menor intenção de continuar os estudos, não só tocava bem como cantava como Francisco Alves, brindando a cidade com canções entoadas debaixo do tamarineiro da Praça da Matriz ou à beira do Velho Chico.

Amiga de infância de João Gilberto, a jornalista e escritora Maria Isabel Muniz Figueiredo, conhecida como Bebela, de 90 anos, se lembra de quando o músico ganhou esse primeiro violão. “Aos 12 anos, e foi dona Patu, a mãe dele, quem deu. Ele ficava tocando para gente na beira do Rio São Francisco”, contou Bebela. Segundo recorda, João Gilberto era um garoto que gostava de estudar e buscava se relacionar com pessoas que pudessem acrescentar algo à sua vida: “Eu, ele e mais uma amiga vivíamos juntos, tínhamos uma proximidade muito grande, nós sempre fomos muito ligados à música e à arte de uma forma geral”.

A partida

No começo dos anos 50, após curta temporada em Salvador, João Gilberto partiu para o Rio de Janeiro, levando o violão debaixo do braço. “Desceu sozinho a escadinha do DC-3, no Galeão, tomou um taxi e subiu ao sexto andar da Rádio Tupi, na avenida Venezuela. Nunca tinha ido ao Rio, mas a cidade não o assustou. Trazia o violão dentro da capa e estava chegando para vencer”, conforme Ruy Castro. Não seria tão fácil. O primeiro emprego fora no grupo “Garotos da Lua”. Chegara a gravar um disco, que naufragara. Na verdade, João Gilberto ainda não cantava como João Gilberto, mas imitando os vozeirões em voga, como Francisco Alves e Orlando Silva. Em janeiro de 1955, desistiu. Sem dinheiro, sem trabalho e quase sem amigos, foi morar em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Em seguida, passou um período em Diamantina, Minas Gerais. Só então, no início de 1956, retornou à capital da República. Desta vez, iria conquistar o Brasil.

Foi Dorival Caymmi que o apresentou a André Midani, reconhecido como o mais importante nome da indústria fonográfica brasileira de todos os tempos e responsável pela apresentação ao público de um novo e cadenciado estilo de música que logo se convencionou chamar de Bossa Nova. Ao ouvir aquela batida de João Gilberto, o francês, então responsável pelo selo Capitol Records, da gravadora Odeon, reagiu: “É isso que o mundo quer ouvir!”. O resto da história, e a construção desse artista extraordinário que foi João Gilberto, são hoje amplamente conhecidos nos quatro cantos do planeta.

In memoriam

“A Juazeiro mágica de João Gilberto não existe mais. Costumo dizer que só restou da Juazeiro de João o Rio São Francisco”, comentou o amigo Maurício Dias: “João Gilberto tinha um encantamento pelo São Francisco. Isso dele dizer que não devia voltar aonde foi feliz era a confirmação de que sua infância em Juazeiro tinha sido muito feliz. Aconteceu tocando violão no cais com os amigos, olhando a passagem dos vapores, respirando o que há de bonito na Bahia”. Como nunca foi realmente um letrista – registros indicam apenas quatro músicas com letras próprias, ele nunca escreveu ou gravou uma música para o Velho Chico. Mas se depender da Prefeitura Municipal de Juazeiro, sua memória permanecerá viva.

Capitaneada por Maurício Dias, a Superintendência de Cultura da cidade está implantando o “Memorial Casa da Bossa Nova” para que as futuras gerações possam conhecer a obra do artista e de seus colegas, como Tom Jobim, Vinicius de Moraes e tantos outros.

“A Juazeiro mal informada e inculta tentou destruir e apagar seu legado dizendo que João não gostava daqui, o que é uma mentira e uma grande maldade. Para mim, uma irresponsabilidade”, disse Dias. Acredito que nem todas Juazeiro entendeu ainda o tamanho da obra de João Gilberto. Com a morte dele, e a grande repercussão no Brasil e no exterior, os jovens estão sabendo finalmente de quem se trata”.

João Gilberto gravou 11 discos em estúdio e outros dez LPs foram gravados ao vivo. O icônico “Chega de Saudade” é o primeiro, registrado em 1959. O último ainda não foi lançado no Brasil: é mais um trabalho ao lado do saxofonista Stan Getz e gravado em um show realizado no Keystone Corner, em São Francisco, em 2016.

 

Assessoria de Comunicação CBHSF:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
*Texto: Altino Filho
*Fotos: Marcizo Ventura e acervo João Gilberto