Onde a água guarda a memória: recuperar a microbacia é proteger a vida e o futuro dos povos originários

24/08/2026 - 14:35

Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco apresenta projeto de conservação e recuperação hidroambiental das microbacias dos córregos Vargem da Serra e São Bentinho, fortalecendo a proteção das águas e do modo de vida Pankararu


Antes de ser apenas água correndo pelo território, uma bica pode ser memória. Pode ser lugar de encontro, de cuidado, de espiritualidade e de transmissão de saberes entre gerações. Para o povo Pankararu, a água não está separada da vida. Ela atravessa a história, a cultura, a fé, a sobrevivência e a própria identidade de quem aprendeu, ao longo de gerações, a conviver com a terra e reconhecer nela uma extensão de sua existência.

Foi carregada desse significado que a comunidade recebeu, na sexta-feira (21), na sede da Associação Indígena Taboa Pankararu, no Sítio Brejinho da Serra/Aldeia Taboa, em Petrolândia/PE, a apresentação do projeto de conservação e recuperação hidroambiental das microbacias dos córregos Vargem da Serra e São Bentinho. A iniciativa é idealizada e conduzida pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), em parceria com a Agência Peixe Vivo e o Ministério do Meio Ambiente, com execução da obra pela empresa Fortal Engenharia. O CBHSF atua na gestão descentralizada e participativa dos recursos hídricos, com a missão de proteger os mananciais e contribuir para o desenvolvimento sustentável de toda a bacia.

O encontro contou com a presença de Cláudio Ademar, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco; Elias Silva, coordenador; Rosa Cecília Santos, secretária executiva; Alexandre Tofeti, representante do Ministério do Meio Ambiente; Marco Alan de Castro, responsável técnico pelo projeto da obra; além de Jana Pankararu e diversas lideranças e moradores da Aldeia Taboa Pankararu.

A presença das lideranças indígenas reforçou o caráter participativo da iniciativa e a importância de construir as ações de recuperação ambiental a partir do diálogo com quem conhece, vive e protege o território. A própria comunidade Taboa Pankararu já havia participado de etapas anteriores de diagnóstico e proposição de ações ambientais, incluindo a revitalização da Bica do Brejinho, a construção de viveiro de mudas e medidas de controle de erosão.

A água que pertence à história

Na memória das mulheres da comunidade, a bica ocupa um lugar especial. Era um espaço tradicionalmente utilizado para os banhos das mulheres. Depois, a água seguia seu caminho, atendendo aos homens, aos animais e atravessando o território. Era uma dinâmica simples, mas profundamente conectada à organização da vida. Hoje, entretanto, a erosão e as transformações ambientais modificaram aquela paisagem. O que antes era abundância passou a conviver com a escassez e com as marcas das mudanças no território.

A bica, nesse contexto, tornou-se também símbolo de uma transformação maior. Recuperá-la significa recuperar uma parte da história. Significa devolver à comunidade não apenas água, mas a possibilidade de reencontrar elementos de um modo de vida que sofreu com a degradação ambiental e com as mudanças climáticas.

Os impactos também são percebidos na biodiversidade. Abelhas, beija-flores e outros polinizadores, fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas e para a produção de alimentos, desapareceram ou tiveram sua presença reduzida. Fruteiras tradicionais como cajueiros e pinheiras, também sofreram com as transformações. A erosão e as mudanças climáticas alteraram ainda as formas tradicionais de subsistência. Áreas que antes eram agricultáveis foram perdendo condições de cultivo, enquanto a criação de animais passou a ocupar maior espaço na dinâmica econômica das famílias.

Conhecimento que retorna para casa

Nesse cenário, a juventude indígena aparece como uma das forças capazes de construir novos caminhos. Jovens que tiveram a oportunidade de estudar fora do território retornam trazendo conhecimento, novas ferramentas e a disposição de colocar a formação acadêmica a serviço da comunidade.

É nesse encontro entre saberes ancestrais e conhecimento produzido nas universidades que surgem novas possibilidades de enfrentamento dos desafios ambientais. A comunidade começa a articular instituições, pesquisadores e parceiros para recuperar não apenas a bica, mas todo o sistema ambiental que sustenta a vida. Entre as iniciativas estão ações voltadas à preservação dos polinizadores e à implantação de estruturas educativas, como casas de abelhas, capazes de contribuir para a recuperação da biodiversidade e, ao mesmo tempo, transformar o território em espaço permanente de aprendizagem.

A proposta é que o conhecimento não fique restrito às instituições. Ele precisa voltar para as aldeias, circular entre as famílias e alcançar as novas gerações.


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Preservar a bacia do São Francisco é preservar um modo de existir e essa é a missão do Comitê

No âmbito de sua atuação em defesa da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, o CBHSF já aprovou 53 projetos, que somam mais de R$ 800 milhões em recursos, provenientes do Fundo de Privatização da Eletrobrás. Os investimentos representam um importante instrumento para transformar a gestão das águas em ações concretas de recuperação ambiental, preservação dos territórios e melhoria das condições de vida das comunidades que dependem do São Francisco e de seus afluentes.

A recuperação hidroambiental ganha, assim, uma dimensão que ultrapassa os limites de uma obra ou de uma intervenção física. Para os povos originários, proteger uma microbacia significa proteger as condições que permitem a continuidade de um modo de vida. Significa preservar a água, a vegetação, os animais, os polinizadores, a agricultura, os espaços sagrados e os conhecimentos transmitidos pelos mais velhos.

Para Jana Pankararu, é também uma forma de garantir que as novas gerações possam permanecer no território sem precisar abandonar completamente suas raízes em busca de sobrevivência. A luta pela recuperação ambiental está diretamente ligada à luta pela autonomia. A comunidade busca fortalecer seus modos tradicionais de produção, criar alternativas de geração de renda e ampliar o acesso a projetos, políticas públicas, mercados e novas oportunidades.

Uma corrente que não conhece fronteiras

A água não reconhece limites territoriais. O que acontece em uma nascente alcança o córrego. O córrego alimenta outros cursos d’água. E cada microbacia integra uma rede maior que desemboca no rio. Por isso, cuidar dos córregos Vargem da Serra e São Bentinho é também cuidar do Rio São Francisco. A recuperação de uma microbacia pode alcançar comunidades vizinhas, ampliar a proteção ambiental e fortalecer uma rede de territórios comprometidos com a preservação das águas e da biodiversidade.

O futuro começa pela memória

Ao colocar lado a lado a ancestralidade e o conhecimento contemporâneo, o projeto aponta para uma compreensão essencial: não existe futuro sustentável quando a memória é apagada.

Por isso, recuperar uma bica é muito mais do que recuperar um ponto de água. É recuperar uma lembrança. Recuperar uma nascente é proteger uma possibilidade de futuro. Recuperar uma microbacia é defender uma comunidade. E defender o território Pankararu é também reafirmar que os povos originários têm o direito de continuar existindo, produzindo, celebrando sua espiritualidade e convivendo em harmonia com a Mãe Terra.

É nesse caminho que o Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco amplia sua atuação: não apenas como instituição de gestão das águas, mas como parte de uma rede que reconhece que preservar o São Francisco é preservar as vidas que dele dependem e os povos que, há gerações, aprenderam a cuidar dele. Porque, no fim, a água não carrega apenas o futuro. Ela carrega a memória de quem somos.


Assessoria de Comunicação do CBHSF:
Tanto Comunicação e Mobilização Social

*Texto: Luiz Hélio Alves
*Foto: Luiz Hélio Alves