Revista Chico nº8: Saara mineiro

04/02/2021 - 17:25

Entre o Norte e Noroeste de Minas, a margem esquerda do Rio São Francisco, região eternizada por Guimarães Rosa no clássico “Grande Sertão: Veredas”, estende-se uma extensa degradação ambiental por quase 100 mil quilômetros quadrados de território que tem secado cursos d’águas que abastecem o Velho Chico


O progresso e a promessa de uma vida melhor chegam em caminhões, carros e motos. Andar a pé ou a cavalo, como faziam o jagunço Riobaldo Tatarana e seus companheiros em Grande Sertão: Veredas, é um costume que foi ficando no passado. A nova vida pede passagem e estradas riscam o sertão, encurtam distâncias e facilitam o comércio. Mas, construídas sem os devidos cuidados, degradam o meio ambiente no trajeto rosiano no Norte e Noroeste de Minas e impõem danos aos cursos d’água, aprofundados pelo carvoejamento e plantios de eucalipto, atividades ocorridas entre as décadas de 70 a 90.

Estradas mal conservadas e construídas sem planejamento são fontes de processos de erosão do solo, que frequentemente criam enormes voçorocas – grandes crateras abertas nas encostas. Na pecuária extensiva, o manejo ruim das pastagens, com rebanhos acima da capacidade de suporte, aumenta a compactação superficial do solo e a erosão. Na agricultura de subsistência, o mau manejo do solo agrava os processos erosivos. Tudo isso leva ao assoreamento das nascentes dos córregos e rios, que se transformam em leitos de areia seca, enterrando os poços o que provoca a escassez de água para o consumo humano e dessedentação animal e acabando com os peixes e toda a fauna aquática.

“São 150 mil km lineares de estradas vicinais degradadas, acrescidos de mais uns três milhões de hectares de pastagens em áreas de pecuária extensiva e mais um milhão de hectares de cerrado degradado”, comentou Júlio Ayala, engenheiro agrônomo e membro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Urucuia. “O cenário é dramático, visto que envolve o vasto território do Norte e Noroeste de Minas. Nesta área de 95,3 mil km² na margem esquerda do Rio São Francisco, localizam-se 38 municípios. Este território é responsável por produzir 33% da vazão média, de 2.850 m3/s, que chega na usina hidrelétrica de Sobradinho, que além de regularizar a vazão do Rio São Francisco, é responsável pelo abastecimento das cidades próximas e a geração de 10% da energia do Nordeste brasileiro”.

Segundo Ayala, o problema da degradação do solo teve início há longos séculos, desde a época dos bandeirantes: “Com uma pecuária extrativista e não conservacionista a degradação ambiental teve início nesta época e continua até hoje, agravada pela descapitalização do criador de gado, com a redução de sua margem de lucro e os poucos recursos para investir em correção, uso, manejo e conservação de solo. Além disso, com o deslocamento dos bandeirantes à procura de ouro, sal, couro, charque, e o próprio gado, foram abertas inúmeras trilhas, caminhos que foram agravando a erosão. O deslocamento do sertanejo à procura de aventuras sociais e econômicos, com abertura de caminhos, feitos com enxadão e picareta, também são canais de escoamento de águas fluviais, provocando profundas fendas em forma de ravinas e voçorocas comumente observadas nesta região”.

 

Imagem de drone

Destruição atinge os cursos d’água

Deixar o solo descoberto, principalmente quando não se manuseia com os devidos cuidados, favorece o processo de erosão, que é intensificado por chuva ou vento. Com o desgaste, os resíduos são levados para as fontes de água e vão sedimentando, o que faz diminuir a capacidade e a vazão dos rios. Segundo um estudo elaborado por engenheiros do exército norte-americano e técnicos da Codevasf, divulgado na sexta edição da CHICO, o leito do Velho Chico vem sendo castigado com 23 milhões de toneladas por ano de sedimentos, boa parte transportada ao leito principal por afluentes, grande parte oriundos deste território de sua margem esquerda.

Nas proximidades da nascente do Rio Pandeiros, no Norte de Minas, é possível encontrar o resultado do assoreamento. “O rio está sendo tomado pela areia. No meio da vasta vegetação de Cerrado e Caatinga, com árvores secas e terra árida, fica o pântano mineiro, que é formado pelas águas do rio onde se reproduzem várias espécies de peixes. Segundo os moradores, há uma década era impossível atravessar o leito. Os afluentes do rio, como o Córrego da Raposa, também estão sentindo os efeitos da erosão. Os bancos de areia estão em toda a extensão do rio. A área inundada era e cinco mil hectares. Hoje, ela não passa de mil hectares. O restante virou areia, assoreamento”, diz o biólogo, doutor em Geografia e pesquisador da região pela Universidade de Montes Claros (Unimontes), Walter Viana.

O problema é que, sem a vegetação nativa, a água da chuva não será absorvida pelo solo e não chegará aos aquíferos que abastecem quase todas as bacias hidrográficas do país. “E quando chega um período de estiagem mais ou menos prolongado, os cursos d’água, que já não são alimentados de maneira satisfatória por precipitações, diminuem ainda mais o volume, provocando crise hídrica como a que assola o Brasil”, explica o biólogo.

Superficialmente, durante a época da chuva, em função do escoamento, a configuração se aproxima à que existia na década de 1950. “Quando vem a estação da seca, essa água superficial da chuva não existe mais. Os rios têm que viver das suas nascentes, que são alimentadas pelos aquíferos. Mas, como eles estão diminuindo pela diminuição na recarga hídrica, muitos rios desaparecem na época seca, passam de perenes a temporários”, esclarece Walter Viana.

O Urucuia é o principal aquífero subterrâneo com capacidade de retenção de água e disponibilização para o abastecimento de rios e poços na região da bacia encontrada no Norte de Minas com uma área em torno de 16.800 km². Como o Aquífero Urucuia tem como fonte de recarga as águas das chuvas e parte dele se encontra em áreas com acelerados processos de degradação a infiltração da água fica prejudicada, também colocando em risco o Velho Chico.

 

Estradas mal conservadas e construídas sem planejamento causam erosão e assoream os cursos d’água

Bom exemplo

O agrônomo Júlio Ayala conta que um produtor da região de Unaí, Noroeste de Minas, é engajado na preservação ambiental. “Ele nos procurou para contar que uma nascente da sua propriedade tinha secado, pois estava totalmente aterrada, provocada por décadas de assoreamentos vindos da erosão do solo. Partimos para a sua recuperação e hoje a nascente produz 27,5 litros por segundo em pleno período seco”.

O produtor Losuir Zuffo, da Coopertinga em Formoso, Noroeste de Minas, acredita na produção sustentável. Ele iniciou a sua atividade agrícola no ano de 1991 e, atualmente, produz o dobro de alimentos na mesma área em comparação ao início da produção. “Quando cheguei à região e começamos a abrir as áreas para plantar nos deparamos com regiões bastante degradadas, com voçorocas imensas. Com as práticas adequadas de uso, manejo e conservação do solo e da água, conseguimos conter as erosões e aumentar a infiltração da água da chuva no solo, e assim tornar a terra mais produtiva e sustentável. Hoje produzimos muito mais em cima do mesmo solo e temos também fartura de água, visto que recarregamos em abundância as reservas subterrâneas e preservamos as nossas nascentes, em forma de veredas. Na minha propriedade rural em Formoso, em 29 anos de atividade agrícola, a produção de água praticamente dobrou, pois naquela época eu abastecia o caminhão pipa d’água da fazenda com 27 minutos, hoje, em agosto de 2020, abasteço o mesmo em 15 minutos, prova de que a água da nascente aqui aumentou com o manejo adequado do solo e a preservação da vereda”.

O que fazer diante desse cenário?

A degradação do solo em pastagens pode ser amenizada mediante a realização de um conjunto de medidas, desde que, bem planejadas e voltadas para o manejo adequado. O agrônomo Júlio Ayala explica que é necessário um Programa Regional de Manejo de Bacias Hidrográficas contemplando todo o território degradado. “Devemos fomentar a educação ambiental e extensão rural voltado para a adoção de boas práticas, na readequação e manutenção de estradas, conservação dos solos na agricultura e pecuária, e desassoreamento de nascentes e veredas. Para as monoculturas deveria ser definido por meio do Zoneamento Ambiental e Produtivo (ZAP), metodologia oficial do Governo de Minas Gerais, uma proposta de gestão integrada em bacias hidrográficas, assim como mecanismos de compens ação por serviços ambientais para produtores que conservam áreas de cerrado nativo, entorno de veredas e contenham nas suas propriedades projetos de manejo de solo que produzam água em quantidade e qualidade”.

Trata-se de um tema extremamente sério, com gravíssimas implicações sociais, econômicas e ambientais para o futuro da região.

“É possível encontrar soluções com base em processos participativos de planejamento e gestão moderna, como aquelas propriedades agrícolas localizadas nas chapadas, na parte alta deste território Norte e Noroeste, onde os produtores rurais convivem com produção sustentável de alimentos essenciais como soja, milho, feijão, trigo, sorgo, café, citros e sementes de capim, e conservação dos recursos naturais com produção de água em quantidade e qualidade. Precisamos transformar essas soluções em programas e projetos de grande escala, visto que os desafios são enormes. Entretanto, o tempo urge e o sucesso dessas soluções requer uma ação rápida”, esclarece Júlio Ayala.

 

O produtor Losuir Zuffo acredita na produção sustentável com o manejo adequado do solo para aumentar a produção de água

 

 


Assessoria de Comunicação CBHSF:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
Texto: Luiza Baggio
Fotos: Léo Boi