Revista Chico nº 18: As muitas caras de Francisco

04/02/2026 - 11:00

Seguindo o curso do Velho Chico, espalha-se a diversidade humana que habita a bacia do São Francisco.

Entre quilombos e comunidades indígenas, convivem ali a mistura do Brasil.


São aproximadamente 18 milhões de pessoas vivendo à beira do Velho Chico: quilombolas, indígenas, pescadores artesanais, comunidades de fundo e fecho de pasto, ciganos, geraizeiros, vazanteiros, caatingueiros, ribeirinhos, povos de terreiro, extrativistas e vaqueiros. No chamado Rio da Integração Nacional, povos originários e comunidades tradicionais estão presentes em toda a bacia, da nascente à foz.

“O emaranhado de povos que coexistem na bacia do Rio São Francisco pode ser definido como uma complexa e rica diversidade étnica, cultural, social e histórica, formada ao longo dos séculos por diferentes grupos humanos que interagem com o meio ambiente e entre si de formas distintas”, destacou a pesquisadora Ana Marinho, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Juntamente com as pesquisadoras Vitória Chagas e Aline Soares, com apoio do Laboratório de Água e Solo da UFRPE, Ana Marinho está à frente de um diagnóstico inédito de povos originários e comunidades tradicionais da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco. Segundo ela, esse tecido social heterogêneo é marcado por diferentes grupos que compartilham o território de maneira interdependente, com modos de vida pautados pela resistência: “Estamos lidando com uma das mais complexas dinâmicas socioterritoriais do Brasil”.

O mapeamento foi encomendado pela Câmara Técnica de Comunidades Tradicionais (CTCT), do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), para melhor entender quem são e onde estão os povos e as comunidades tradicionais que habitam o Velho Chico. A ideia é fortalecer boas práticas de gestão ambiental e territorial, bem como políticas públicas voltadas a esses povos.

De acordo com Uilton Tuxá, coordenador da CTCT do CBHSF, já são mais de 641.500 pessoas que se autodeclararam quilombolas, indígenas, pescadores artesanais e de comunidades de fundo e fecho de pasto no decorrer da bacia.

Em Ibotirama (BA), homem, barco e rio se confundem em momento simbiótico

 

Comunidades de fundo e fecho de pasto

Os modos de vida das comunidades de fundo e fecho de pasto estão ligados à terra e ao bioma onde vivem. Criam animais soltos — caprinos (fundos) e gado (fechos) — que se alimentam da vegetação nativa, alternativa à agricultura em região seca. Essas comunidades compartilham áreas comuns, sem cercamentos, baseadas na convivência e no uso coletivo do território.

 

Quilombolas

Segundo a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais e Quilombolas (CONAQ), “quilombo” vem do quimbunco, idioma banto que significa “sociedade de jovens guerreiros desenraizados de suas comunidades”.

Nascidos da resistência ao modelo escravagista, os quilombos seguem lutando pela titulação de seus territórios. Preservam cultura, tradições e modos próprios de viver.

 

Caatingueiros

O modo de vida e de produção dos caatingueiros está profundamente ligado ao bioma da Caatinga. Descendentes, em sua maioria, de imigrantes europeus, mantêm traços culturais e familiares desses povos. Produzem alimentos variados e laticínios, criando gado que se alimenta das pastagens nativas em meio às longas secas da região.

 

Ribeirinhos

Ribeirinhos vivem próximos aos rios, dependendo da pesca artesanal para sobreviver. Cultivam pequenos roçados para consumo próprio. Também praticam atividades extrativistas e de subsistência.

 

Povos de terreiro

Povos e comunidades de terreiro são aquelas famílias que possuem vínculo com casas de tradição de matriz africana – chamadas casas de terreiro. Esse espaço congrega comunidades que têm características comuns, como a manutenção das tradições de matriz africana, o respeito aos ancestrais, os valores de generosidade e solidariedade, o conceito amplo de família e uma relação próxima com o meio ambiente.

Essas comunidades possuem uma cultura diferenciada e uma organização social própria, que constituem patrimônio cultural afro-brasileiro.

 

Vaqueiros

Conhecidos pelos trajes de couro — que os protegem da vegetação espinhosa e do sol quente — e por percorrer o sertão a cavalo para cuidar do gado, os vaqueiros têm como grande desafio a busca por água, o que os obriga a percorrer grandes distâncias até encontrar uma fonte para os animais.

O vaqueiro é tão importante no cenário da Caatinga que possui um dia nacional, celebrado em 20 de julho, além de participar de manifestações tradicionais como as vaquejadas, uma forte expressão popular da região.

 

Povos ciganos

No Brasil, existem vários grupos que compõem os povos ciganos, como os Rom, os Sinti e os Calon. Estão distribuídos em todos os estados da Federação e no Distrito Federal.

Cada um desses grupos étnicos possui dialetos, tradições e costumes próprios. Muitos ainda se dedicam às atividades itinerantes tradicionais da cultura cigana, mas é importante destacar que nem toda pessoa de etnia cigana é nômade.

 

Povos indígenas

Os indígenas são os povos mais antigos do Brasil, por isso denominados povos originários. Cerca de 70 mil habitam a bacia do Rio São Francisco, representando 32 povos indígenas que vivem e sobrevivem desse rio.

Mesmo sofrendo com constantes tentativas de expulsão de suas terras e correndo o risco de perderem os direitos conquistados na Constituição de 1988, os povos originários permanecem firmes na luta pela conservação de seus modos de vida. Esses modos têm como princípios o respeito e a defesa da natureza, com profundo zelo e senso de pertencimento.

 

Extrativistas

O extrativismo se dá com a coleta de produtos naturais, sejam eles de origem animal, vegetal ou mineral. Até hoje, povos e comunidades extrativistas se agrupam para a extração e a coleta enquanto atividade econômica e de subsistência.

São pequenos agricultores que possuem culturas distintas, desenvolvendo seus modos de vida e produção alinhados com a lógica do ecossistema em que habitam. Carregam um conjunto amplo de saberes oriundos das percepções e da relação direta com o meio ambiente.

 

Geraizeiros

São as mulheres e os homens do Cerrado que, às margens do Rio São Francisco, se adaptaram com sabedoria às características do bioma e às suas possibilidades de produção. Muitas vezes, eles dividem uma propriedade comum, conhecida como quintais, onde plantam e criam animais.

Dessa forma, garantem a subsistência familiar e comunitária, enquanto o excedente é comercializado em comunidades vizinhas ou em feiras, fortalecendo os laços sociais e econômicos locais.

 


Assessoria de Comunicação do CBHSF:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
Por: Andréia Vitório
Fotos: Bianca Aun, Emerson Leite, Fernando Piancastelli,
Juciana Cavalcate, Leonardo Ramos e Miguel Aun