Quem cuida da água, cuida do futuro: o protagonismo feminino na proteção do Velho Chico

22/03/2026 - 10:30

No dia 22 de março, quando o mundo volta seus olhos para o Dia Mundial da Água, a reflexão sobre o valor desse recurso essencial ganha novos contornos ao ser atravessada por uma dimensão muitas vezes invisibilizada: a de gênero. Mais do que um debate global, essa relação se revela de forma concreta e cotidiana nos territórios — especialmente na bacia do Rio São Francisco, onde histórias de cuidado, resistência e liderança feminina se entrelaçam com a própria sobrevivência do rio.


Ao longo das margens do Velho Chico, são as mulheres que, historicamente, estabelecem uma relação direta e profunda com a água. Seja no abastecimento das casas, na produção de alimentos, no cuidado com a saúde das famílias ou na organização comunitária, elas vivenciam, no dia a dia, tanto os desafios quanto as soluções relacionadas ao uso e à preservação dos recursos hídricos. Esse vínculo, construído na prática e na experiência, transformou-se, ao longo do tempo, em conhecimento, mobilização e protagonismo.

Se antes essa atuação estava mais restrita ao cotidiano das comunidades, hoje ela também ocupa espaços estratégicos de decisão. As mulheres ampliam sua presença na governança das águas, lideram projetos, contribuem para a formulação de políticas públicas e fortalecem iniciativas de revitalização do rio — mostrando que cuidar da água também é exercer liderança e transformar realidades.

A participação feminina no Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) e em suas instâncias, como as Câmaras Consultivas Regionais, tem crescido nos últimos anos. Esse avanço reflete uma mudança importante: o reconhecimento de que a gestão das águas precisa ser diversa para ser mais eficiente e representativa.

Na Agência Peixe Vivo, entidade responsável pelo apoio à execução das ações do Comitê, essa realidade já é concreta. A diretora-geral, Rúbia Mansur, destaca que a presença feminina tem transformado a forma de pensar e executar a gestão hídrica. “As mulheres sempre tiveram uma relação muito direta com a água, especialmente nas comunidades da bacia do Rio São Francisco. O que temos visto é que esse papel, antes mais associado ao cotidiano, passou também a ocupar os espaços de gestão e de decisão”, afirmou.

Rúbia também ressalta que a participação feminina na Agência é expressiva, tanto na equipe técnica quanto na diretoria, o que contribui para uma visão mais integrada. “Essa presença contribui para uma gestão mais sensível, conectando a água às dimensões sociais, ambientais e humanas do território”, destacou.


Rúbia Mansur, diretora-geral da Agência Peixe Vivo


Apesar dos avanços, ainda existem desafios. Muitas mulheres enfrentam dificuldades para participar de forma contínua nos espaços de governança, seja pela distância, pela sobrecarga de responsabilidades ou pela falta de oportunidades de formação. Ampliar essa participação de forma estruturada e permanente é um dos caminhos para fortalecer a gestão das águas na bacia.

Esse movimento também é percebido dentro do próprio Comitê. Para Rosa Cecília Santos, secretária executiva do CBHSF, a presença feminina tem contribuído diretamente para o fortalecimento das discussões e das ações voltadas à revitalização do rio. “A atuação das mulheres no Comitê tem sido cada vez mais relevante, trazendo sensibilidade, compromisso e uma visão integrada dos territórios. Na pauta da revitalização do Velho Chico, essa presença é fundamental, porque as mulheres vivem de perto os impactos e constroem, no dia a dia, soluções para a proteção do rio”, disse.

Nas comunidades rurais, ribeirinhas e tradicionais da bacia, são as mulheres que, historicamente, lidam diretamente com o uso da água. “Seja no abastecimento doméstico, na agricultura familiar ou no cuidado com a saúde da família, elas vivenciam de perto os impactos da escassez, da poluição e da falta de saneamento. Essa relação cotidiana faz com que tenham um conhecimento profundo sobre o território — um saber essencial para a construção de soluções mais eficazes e sustentáveis”, acrescentou.


Rosa Cecília, secretária executiva do CBHSF


O protagonismo feminino também se destaca na execução de projetos ambientais e sociais. Iniciativas de recuperação de nascentes, saneamento rural, educação ambiental e gestão comunitária da água frequentemente têm mulheres à frente.

Segundo Rúbia Mansur, esse protagonismo faz diferença direta nos resultados. “Em muitos projetos, percebemos que são elas que acompanham mais de perto o funcionamento das soluções implantadas. Quando as mulheres participam ativamente, o engajamento aumenta e os resultados tendem a ser mais permanentes”.

Um exemplo são os projetos de saneamento rural com tecnologias sociais, como os tanques de evapotranspiração (TEVap), conhecidos como “fossas de bananeiras”. Nessas iniciativas, o envolvimento das mulheres no cuidado e na manutenção dos sistemas tem sido determinante para o sucesso das ações.

Desafios e desigualdades

A relação entre água e gênero também evidencia desigualdades. A falta de acesso à água de qualidade e ao saneamento básico impacta de forma mais intensa a vida das mulheres, aumentando a carga de trabalho, comprometendo a saúde e limitando oportunidades de educação e geração de renda.

Para a pesquisadora Fernanda Matos, reconhecer essa desigualdade é fundamental para avançar. “Pensar a gestão da água sem considerar as questões de gênero é ignorar uma parte essencial da realidade. As mulheres não apenas sofrem de forma mais direta os impactos da falta de acesso à água, como também são protagonistas nas soluções. Incluir esse olhar é tornar a gestão mais justa e mais eficiente”, afirmou.

Além dos desafios, a articulação entre mulheres que atuam em diferentes espaços — no sistema de gestão, em instituições parceiras e na sociedade civil — tem sido um fator importante para fortalecer a governança das águas. Para Rosa Cecília Santos, essa conexão amplia o alcance das ações e potencializa resultados:

“Quando as mulheres que atuam no Comitê, nas instituições e nas comunidades se conectam, há uma troca muito rica de experiências e saberes. Essa interação fortalece as decisões, aproxima a gestão da realidade dos territórios e contribui para soluções mais efetivas na proteção e na revitalização do Velho Chico.”


Fernanda Mattos, professora, pesquisadora e consultora técnica


Neste Dia Mundial da Água, reconhecer o papel das mulheres na gestão dos recursos hídricos é mais do que uma questão de equidade — é um passo essencial para fortalecer a governança e garantir um futuro mais sustentável para o Rio São Francisco e para todas as populações que dependem dele.


Assessoria de Comunicação do CBHSF:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
*Texto: Luiza Baggio
*Fotos: João Alves, TantoExpresso, Fernanda Matos – Acervo pessoal