O mundo não enfrenta mais apenas uma “crise hídrica” passageira, mas um estado de falência hídrica. O alerta faz parte do novo relatório “Falência Hídrica Global”, do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH). O documento revela que o consumo excessivo e as mudanças climáticas levaram os sistemas hidrológicos a um ponto sem volta, ameaçando metade da produção mundial de alimentos.
O Que é a Falência Hídrica?
Diferente de uma crise, que sugere um evento temporário, a falência indica que a humanidade esgotou não apenas sua “renda” anual de água renovável, mas também suas “reservas” de longo prazo. A geógrafa e professora da Universidade de Pernambuco (UPE), Thaís Guimarães, explica que o termo propõe uma mudança de paradigma necessária.
“O termo falência hídrica é usado em uma escala maior quando se fala em ‘crise hídrica’, que se tornou um rótulo padrão para qualquer episódio de estresse. Isso quer dizer que, em muitas regiões, os problemas já não se assemelham a uma crise convencional; onde as sociedades gastaram seus orçamentos hidrológicos por tanto tempo que os recursos se esgotaram e os danos aos ecossistemas já são irreversíveis em escala de tempo humana.”
O documento da ONU indica que 50% dos grandes lagos do mundo perderam volume de água desde 1990. Nos aquíferos, 70% das principais reservas subterrâneas apresentam declínio e nas zonas úmidas 410 milhões de hectares foram destruídos nos últimos 50 anos.
O impacto local: O caso da Bacia do Rio São Francisco
Enquanto os debates globais se preparam para a Conferência da ONU sobre a Água em 2026, a realidade no Brasil, especialmente na Bacia do Rio São Francisco, exige ações imediatas. A professora Thaís destaca que o cenário local é um reflexo dessa tendência global, onde a escassez se torna permanente.
Para a especialista, a degradação no “Velho Chico” é fruto de uma combinação de fatores que inclui a exploração excessiva para agricultura e indústria, poluição urbana e eventos climáticos extremos. “Na Bacia do São Francisco, os custos dessa degradação já se manifestam nas dinâmicas sociais e ambientais. Nossa realidade tem sido muito difícil”, afirma Thaís. “A natureza tem o poder de se autorregular quando está em equilíbrio, mas quando a demanda é maior que a oferta, o sistema entra em colapso.”
Escassez Qualitativa: Água que existe, mas não serve
Um dos pontos mais críticos levantados pelo estudo, confirmam o que a professora já afirma há alguns anos em suas pesquisas que o problema vai além do volume de água (escassez física). Trata-se de fatores como Poluição: O despejo de esgoto, resíduos de mineração e defensivos agrícolas criam uma escassez qualitativa.
Como consequência, rios e riachos, especialmente em áreas urbanas, tornam-se tóxicos, aumentando os custos de tratamento de saúde pública e inviabilizando o consumo humano.
2026: O ano decisivo para a Governança da Água
O relatório precede reuniões estratégicas em Dakar, Senegal, que servirão de base para a Conferência das Nações Unidas sobre a Água de 2026, nos Emirados Árabes Unidos.
Thaís Guimarães reforça que 2026 será o ano chave para a segurança hídrica global, mas ressalta que o sucesso depende do que é feito agora nas bacias hidrográficas. “Os compromissos globais só se tornam efetivos quando se transformam em ações locais consistentes. Isso significa fortalecer a pesquisa, ampliar o monitoramento da qualidade da água e, principalmente, garantir que as decisões respeitem os limites ambientais e as necessidades das populações.”
Considerando os desafios para a gestão pública, o relatório da ONU sugere que os governos parem de buscar soluções paliativas e foquem na “gestão da falência”, o que inclui transformar setores que consomem água em excesso, priorizar transições justas para comunidades vulneráveis e integrar a produção científica com políticas públicas de participação social.
Acesse o relatório em: https://ifz.org.br/516b6b8e-e671-4022-9eb3-ba360fac9787
Assessoria de Comunicação do CBHSF:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
*Foto: Bianca Aun