Revista Chico nº18: No encalço de Lampião

04/03/2026 - 17:00

Às margens do São Francisco, sertão de Alagoas, fronteira com Sergipe, fica a colonial cidade de Piranhas. Tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. Essa joia do Nordeste é a porta de entrada para a Rota do Cangaço, que transporta o visitante pelos caminhos de Lampião e seu bando.


No sertão castigado pelo sol, surgiu Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, acompanhado da bela Maria Bonita. Seu bando, uma confraria de homens endurecidos pela seca e mulheres ornamentadas, misturava a brutalidade dos jagunços e a poesia do estilo: cartucheiras cruzadas, chapéus ornamentais, punhais à mostra, alpercatas. O cangaço, muito mais do que banditismo, tornou-se teatro de justiça social, feita com sangue. Em saques, assaltos e sequestros, além de confrontos com a polícia ou grupos rivais, o bando de Lampião tocou fogo na Caatinga entre os fins do século XIX e o início do século XX.

O surgimento do cangaço está diretamente associado à estrutura escravocrata do Nordeste de então. As terras se encontravam nas mãos de muito poucos, os coronéis, que viviam na abundância. Enquanto isto, o povo enfrentava a seca, a fome, a pobreza extrema, a exploração. Ao se recusarem a fazer parte desta pirâmide perversa, os cangaceiros se impuseram na paisagem como bandoleiros destemidos e sanguinários. Era matar ou morrer.

Para os ricos, Lampião era o fora-da-lei. As tropas policiais, chamadas Volantes, perseguiam-no como o maior inimigo da ordem. A fama de cruel tinha razão de ser, pois costumava degolar os inimigos e castigar companheiros desobedientes. Para muitos sertanejos, no entanto, esmagados pelo poder dos coronéis, Lampião era o justiceiro. Sua imagem de rei do cangaço se confundia com a de herói popular: o cabra que desafiava o sistema, em um lugar abandonado por Deus e pelo Estado.

Em 28 de julho de 1938, o bando de Lampião foi surpreendido na Grota de Angicos, em Poço Redondo, nos arredores de Piranhas, por uma emboscada de uma volante de Alagoas, comandada pelo tenente João Bezerra. Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram mortos em combates. As cabeças acabaram exibidas na praça pública da cidade de Piranhas, como o símbolo de que o Estado havia derrotado o cangaço.

Os casarios e a geografia ímpar de Piranhas são guardiões de uma das mais impressionantes histórias folclóricas deste país.

 

Em Piranhas

Fundada ainda no século XVII, Piranhas parece suspensa no tempo. De frente para o São Francisco, nasceu como entreposto ribeirinho. No fim do século XIX, tornou-se um ponto estratégico por conta da Estrada de Ferro Paulo Afonso, que ali desembocava. Até hoje a velha estação ferroviária, de 1881, está lá, transformada em museu. O cenário também está preservado, marcado pelo casario colonial colorido, as ruas estreitas de pedras e as ladeiras que sobem e descem até o Velho Chico.

A bela cidade hoje se reinventa como destino turístico. Dali, pela manhã, partem os passeios de catamarã pelo cânion do São Francisco. À noite, o centro histórico de Piranhas pulsa, com muitos restaurantes e lojinhas de artesanato.

“Durante o período do Brasil Império, Piranhas era um porto onde as mercadorias que subiam o Rio São Francisco paravam. Como o trecho do rio era cheio de corredeiras e inviável para a navegação, as cargas eram desembarcadas e seguiam em lombo de animais. Para solucionar o problema, o Imperador Dom Pedro II trouxe engenheiros ingleses, que construíram a ferrovia para ligar o Alto e o Baixo São Francisco”, explicou o guia turístico Rafael Sabino. “Foi a partir dessa ferrovia que Piranhas se desenvolveu. A cidade cresceu em torno do trem, e a arquitetura preservada, como a torre do relógio, a estação e os armazéns, reflete essa história”.

 

Rota do Cangaço

A partir de Piranhas, uma viagem de catamarã ou lancha pelo Complexo Turístico do Xingó transporta o visitante para a história. O ponto alto da aventura é a trilha que leva à Grota do Angico, em Poço Redondo (SE). Foi neste local que, em 1938, a polícia surpreendeu e matou Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros, pondo fim à era do cangaço.

O trajeto, que pode ser reservado com antecedência ou através das agências de turismo, oferece uma mistura de beleza natural e um mergulho profundo em um dos capítulos mais marcantes da história brasileira. Os passeios têm custo a partir de R$ 100 por pessoa.

Para conhecer o local histórico da morte de Lampião, o visitante pode contratar o pacote oferecido pelas agências, que inclui opções para desfrutar da culinária local em restaurante à beira do Rio São Francisco, além de uma trilha opcional (custa em média R$ 30 por pessoa) que leva ao exato local da morte do cangaceiro.

 

Informações úteis:

  • Distância da capital (Maceió): 298 km

  • Passeios para a Rota do Cangaço: é possível reservar online ou diretamente com agências de turismo em Piranhas.

 

Pontos turísticos imperdíveis de Piranhas

  • Museu do Sertão (ou do Cangaço): Localizado na antiga Estação Ferroviária, esse museu é uma imersão na história do cangaço, com fotos, documentos e objetos que contam a vida de Lampião e seu bando, além de retratar o cotidiano do homem sertanejo.
  • Torre do Relógio: Com um relógio inglês datado de 1879, a torre em frente ao museu é um marco no centro histórico e abriga um charmoso café local.
  • Mirantes: Para vistas de tirar o fôlego, Piranhas oferece dois mirantes incríveis. O Mirante Secular, que servia como farol para embarcações, e o Mirante da Igreja do Bonfim, que recompensa os 265 degraus com uma vista panorâmica do Velho Chico e da cidade.
  • Prainha de Piranhas: Situada no centro da cidade, a prainha fluvial é ideal para um mergulho refrescante, e de onde partem os passeios de catamarã para a Rota do Cangaço.
  • Palácio Dom Pedro II: Um belo edifício com arquitetura neoclássica que já foi residência de governador e hoje é aberto à visitação, contando um pouco mais da história política da região.
  • Gastronomia local: Destaque para pratos típicos como carne de sol, bode e macaxeira, servidos nos diversos restaurantes.
  • Trilha da Linha Férrea: Caminhada tranquila e cênica margeando o Rio São Francisco, perfeita para os amantes da natureza.

 


Assessoria de Comunicação do CBHSF:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
Por: Juciana Cavalcante
Fotos: Benjamin Abrahão Botto e Edson Oliveira