Revista Chico nº 18: Cavernas que guardam História

06/01/2026 - 13:30

A trajetória do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, santuário esculpido pelo tempo, até ser reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO.


As caminhadas por ali impressionam: cavernas gigantes, silenciosas, adornadas por riachos cristalinos e fantásticas formações rochosas. Nas paredes, inscrições milenares, que remetem a outro tempo, outro mundo. Em julho, enfim, o mágico Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, no Norte de Minas Gerais, foi reconhecido como Patrimônio Mundial Natural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A decisão foi anunciada durante a 47ª Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, em Paris, na França.

 

Localizado a 670 quilômetros de Belo Horizonte, no encontro das cidades de Itacarambi, Januária e São João das Missões, o parque abriga mais de 250 cavernas, que chegam a atingir 100 metros de altura. No Peruaçu, pesquisadores já encontraram pinturas rupestres de 12 mil anos e cânions de até 200 metros de profundidade. A unidade de conservação figura entre os mais importantes sítios naturais e arqueológicos do país, com 56 mil hectares e 500 formações geológicas catalogadas.

Dentro das cavernas, o silêncio fala. O nome, Peruaçu, vem do tupi: “grande buraco”. Por séculos, o vale ficou esquecido, sem que ninguém lhe desse importância histórica. Vaqueiros e lavradores atravessavam seus desfiladeiros e descansavam à sombra das cavernas. Só no fim do século XX o Peruaçu começou a ser estudado. Espeleólogos e cientistas, vindos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de instituições internacionais, mapearam centenas de cavernas e sítios. Foi o começo da travessia que transformaria o isolado sertão em símbolo de memória e preservação.

Dentre os valores culturais, pinturas rupestres milenares se multiplicam pelas paredes de pedra

 

Em 21 de setembro de 1999, o governo federal criou oficialmente o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, com mais de 56 mil hectares. A partir daí, o desafio foi conciliar conservação e presença humana. O parque nasceu dentro de uma paisagem viva, de comunidades tradicionais que ainda pescam no São Francisco, cultivam roçados e mantêm viva a memória dos antigos caminhos de tropeiros.

Com o tempo, o Peruaçu ganhou trilhas, passarelas e guias locais formados pelo ICMBio. Vieram pesquisadores, fotógrafos, viajantes. A Caverna do Janelão, com 100 metros de altura e claraboias naturais que filtram o sol, tornou-se o coração simbólico do parque. A Lapa dos Desenhos revelou uma das maiores galerias de arte rupestre das Américas. E, nas margens do Velho Chico, as comunidades começaram a perceber que o turismo podia significar possibilidade de permanência para os nativos. O título concedido pela UNESCO consagrou não apenas a grandiosidade geológica, mas a relação entre o homem e o rio, entre o presente e o passado.

O território conta com mais de 500 formações geológicas catalogadas, que formam um espetáculo de exuberância e poder da natureza

 

PASSEIOS IMPERDÍVEIS

 

Como chegar: o parque fica a 15 km de Itacarambi e a 55 km de Januária (MG).
Melhor época: de maio a setembro, durante a estação seca.
Agendamento: visitas devem ser reservadas com antecedência pelo site do ICMBio.

Centro de Visitantes / Portaria Areião

Espaço expositivo sobre geologia, arqueologia e cultura local.
Dica: comece o dia aqui. O vídeo introdutório ajuda a compreender o que o olhar distraído não percebe.

Caverna do Janelão

O ícone do parque. Um templo de pedra de cerca de 100 metros de altura, onde a luz entra por aberturas naturais e o rio subterrâneo ecoa. Dificuldade média, caminhada de aproximadamente quatro horas (ida e volta).
Dica: vá entre 9h e 11h, quando os feixes de sol atravessam as fendas e criam colunas douradas.

Lapa dos Desenhos

Uma das maiores galerias de arte rupestre das Américas, com centenas de figuras humanas, animais e símbolos pintados há até nove mil anos. Caminhada leve, em torno de duas horas.
Dica: observe sem tocar — o pigmento natural é sensível e se apaga com o tempo.

Lapa do Boquete

Local das principais escavações arqueológicas do parque, abriga vestígios de antigas ocupações humanas e formações rochosas impressionantes. Dificuldade média, cerca de três horas.
Dica: vá com guia local, que costuma contar as histórias transmitidas de geração em geração.

Trilha do Travessão

Caminho pelo alto dos cânions, com vista panorâmica do vale e do curso sinuoso do Rio São Francisco. Trilha moderada, com duração média de três horas.
Dica: percorra no fim da tarde — o pôr do sol transforma o cerrado em um cenário de luz dourada.

Gruta Bonita

Menor e mais íntima, guarda formações cristalinas e o silêncio absoluto das cavernas “vivas”. Caminhada leve, de aproximadamente uma hora e meia.
Dica: use capacete e lanterna; o som das gotas d’água cria uma trilha sonora mineral.

Lapa Bonita (ou Lapa do Índio)

Abrigo natural com inscrições rupestres e um mirante para o vale. Caminhada fácil, em torno de uma hora.
Dica: leve chapéu e água — o sol do norte de Minas é forte mesmo nas trilhas curtas.

Cachoeira do Janelão (fora do parque)

Um refúgio de águas claras e poços para banho, cercado por rochedos. Caminhada leve, cerca de duas horas.
Dica: combine o passeio com a visita à caverna principal; o banho é recompensador após a trilha.

 

 

Entalhadas nas pedras das Minas Gerais, as Cavernas do Peruaçu guardam riquezas naturais e históricas

 


Assessoria de Comunicação do CBHSF:
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
Por: Karla Monteiro
Fotos: Michelle Parron e Miguel Aun