Projeto do CBHSF recupera nascentes na bacia do rio Piauí

Em Coruripe, município de Alagoas, já são 146 fontes de água beneficiadas

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Texto: Vítor Luz e Fotos: Edson Oliveira

Com cerca de 50 mil habitantes e localizado à 85 quilômetros de Maceió, o município de Coruripe  vive hoje uma experiência contemporânea: revitalizar para perpetuar. A cidade foi uma das contempladas com o projeto de recuperação hidroambiental nas porções média e baixa da bacia do rio Piauí. Já em fase de execução, as ações estão a todo vapor: 352 nascentes foram identificadas para recuperação e estima-se que aproximadamente 600 mil pessoas serão beneficiadas.

Fincada nos Tabuleiros Costeiros do estado de Alagoas, Coruripe tem nas atividades primárias o sustento: cultivo da cana-de-açucar, coleta de coco, da pesca, da cultura do maracujá, abacaxi, feijão, artesanato, comércio e turismo. Suas terras são transpassadas pelo rio Piauí, um dos afluentes do São Francisco. Essa bacia hidrográfica abrange, total ou parcialmente, os municípios de Arapiraca, Limoeiro de Anadia, Junqueiro, São Sebastião, Teotônio Vilela, Coruripe, Feliz Deserto, Penedo e Piaçabuçu, perfazendo uma área de drenagem de aproximadamente 1.080 km².

Em menos de 150 dias os resultados do projeto de recuperação hidroambiental já são expressivos: das 352 nascentes mapeadas e contempladas pelo termo de referência, que orienta as ações na região, aproximadamente 146 delas estão em mobilização ativa. A Engenatus Engenharia e Meio Ambiente é a responsável pelo projeto. O plano de ação visa mapear as nascentes de água, para que a recuperação de estradas vicinais, cercamentos e o reflorestamento da mata ciliar sejam realizados, afim de evitar o crescimento da degradação ambiental.

“Uma questão muito maior que nós temos que perceber é que precisamos conservar a natureza”, diz o engenheiro florestal e diretor técnico da Engenatus, Igor Pinheiro. “As pessoas estão ficando sem água para o consumo humano e isso é uma tragédia sem precedentes. Precisamos garantir o usufruto desta água em nosso amanhã, nossas ações hoje definirão tal projeção”.

Ações

A degradação ambiental tem raízes profundas e alicerçadas em passado marcado por uma vasta exploração agropecuária. O cultivo da cana-de-açúcar é muito forte e extensivo na região, o que gera grandes comprometimentos ambientais para todo o ecossistema. Durante a atividade de mobilização social na região, os engenheiros observaram diversos represamentos de nascentes, o que é crime previsto por lei, mas que por muitos anos foi percebido como uma alternativa para subsistência agrícola.

“Ao longo dos últimos meses, nós identificamos muitos barramentos de nascentes. Encontramos proprietários de terras que instalam bombas de água e a utilizam para abastecer sua cultura agrícola, o que é compreensível. Mas eles esquecem que a água é um bem comum e não é uma propriedade das pessoas. Ela é de direito da União, não podemos nos apropriar desse bem, muito menos usar em benefício próprio”, ressalta Pinheiro.

O desmatamento é um dos fatores que contribui – e muito – para a degradação, ocasionando os processos erosivos. Na região, a madeira é retirada das chamadas áreas de recarga das águas  para a produção de mourões de cercas, canoas e como lenha. Sem o anteparo das árvores, durante os períodos de chuva, a lama escorre, soterrando nascentes e dificultando o brotamento hídrico. O replantio das matas ciliares é considerado de fundamental importância no processo de recuperação e preservação.

Outra etapa importante de recuperação, em plena execução, são os cercamentos, que servem como proteção física das fontes de água, tanto contra o pisoteio de animais, quanto da ação humana.  “Esse projeto possui uma duração de 24 meses, tempo mínimo para que as espécies florestais comecem a se estabelecer. Só vamos considerar uma nascente recuperada depois de um período. As espécies demandam tempo para atingirem  maturidade ecológica e fisiológica”, afirma o engenheiro.

montagem engenheirosIgor Pinheiro e Mykael Bezerra engenheiros florestais da Engenatus

Desafios

A escolha de Coruripe para a implantação do projeto não é acidental. Recordista em degradação, o município possui uma infinidade de nascentes a serem recuperadas. O principal problema é o uso descontrolado da água para irrigação das lavouras.

“Nosso maior desejo é aumentar a quantidade de água produzida, que vai abastecer não só o rio Piauí, como também o rio São Francisco, um dos principais beneficiados deste programa do Comitê de Bacias”, afirma o diretor operacional da Engenatus, o engenheiro florestal Mykael Bezerra. “Se nada for feito, pode ser que a população, não só do baixo São Francisco, mas de forma mais macro, venha a ser prejudicada por falta d’água. Ao todo estão sendo preservadas 352 nascentes, de forma indireta são mais de 600 mil pessoas beneficiadas com esse projeto”.

O desafio secundário, após o mapeamento das nascentes, é a mobilização social, com palestras e visitas às propriedades que possuem fontes de água. Como os lotes fundiários da região não são grandes, ceder metros de terras para conservação do meio ambiente exige generosidade e uma consciência ambiental ampliada.

“A mobilização social acontece semanalmente. Das 146 nascentes que foram mobilizadas, apenas três não tiveram autorização para a realização das intervenções”, destaca Bezerra. “Estimamos que aproximadamente 2% dos donos de terra não aceitem a proposta de preservação das nascentes, que já é um número surpreendentemente pequeno, mas estamos trabalhando cada vez mais para reverter estas situações”.

Bem Comum – Conscientes da importância do projeto, moradores se engajam na recuperação das nascentes

Genival Luiz França, o Sr. Vavá, como é conhecido na região, é o dono do maior número de nascentes. Suas terras abrigam quatro fontes de águas. Ao receber a visita da turma de mobilização social, não pensou duas vezes: autorizou as intervenções para a preservação de cada uma delas. As nascentes já receberam os cercamentos e, nas próximas semanas, a limpeza será realizada, juntamente com a preparação do solo para efetivação do plantio das mudas.

“As coisas estão se acabando mundo a fora, os rios estão secando e algo precisa ser feito. A única coisa que posso fazer é a minha parte. Se eu tenho o privilégio de ter tantas nascentes em minhas terras, o mínimo é cuidar delas. Se depender de mim, vão produzir mais e mais água”, afirma o fazendeiro.

Seu Vavá é pai de três filhas. Nenhuma delas viu o rio Piauí da infância dele. E seu desejo é que os netos voltem a ter este privilégio. “As pessoas precisam entender a situação atual para que possamos ter um amanhã. Acredito que o futuro depende da recuperação e preservação destas nascentes. Se  secar o Piauí e o São Francisco, como vamos viver?”, questiona. “Minhas filhas não conheceram o rio que eu conheci, mas estou fazendo algo para que meus netos possam um dia contemplar essa beleza. Esse trabalho de recuperação das nascentes só vai melhorar as coisas, após o reflorestamento a água só vai aumentar. Em três meses que os engenheiros estão atuando já consigo ver mudanças e melhorias”.

Além de abrir sua propriedade para o projeto de recuperação hidro ambiental, o fazendeiro agora ajuda na mobilização, pedindo aos vizinhos que também contribuam: “Se você possui uma nascente em sua propriedade permita a preservação e o reflorestamento, esse é um compromisso meu, esse é um compromisso nosso, pois sem água não vivemos e água é vida”.

Não muito distante das terras do Seu Vavá outras nascentes receberão os primeiros cuidados de preservação ambiental nas próximas semanas. Debaixo da copa das árvores, abrigando-se da forte chuva, encontramos Claudiane dos Santos, 32, que lavava roupas numa das fontes de água mapeadas: “Lavo roupa aqui desde os meus sete anos. A preservação das nascentes vai nos possibilitar mais água amanhã. Tenho quatro filhos e com todos esses cuidados com o meio ambiente eu acho que eles vão poder ter uma vida melhor quando crescerem. Também ajudo a cuidar das nascentes, sempre que posso ajudo na limpeza”, afirma.

Só foi a chuva estiar que logo chegou o proprietário da terra, o José Cícero Alves, 54. Com sorriso no rosto e olhos brilhando, resume: “Ter uma nascente em minha propriedade é motivo de muito orgulho. Cuido dela desde quando começou a brotar e agora com esse novo projeto vai produzir mais água ainda”.

José Cícero tem sete filhos e sete netos e nutri a esperança de que eles possam conhecer o rio ele conheceu: “Antes isso tudo aqui era cheio de água, eu passava com água na cintura. Acredito que com a preservação das nascentes teremos mais água amanhã e se essa água nasce aqui eu devo zelar por ela. O que depender de mim nós vamos pra frente, desejo que todas as outras pessoas que possuem nascentes em suas terras façam como eu, preserve e cuide”.

Quem observava atentamente toda aquela novidade em sua casa era a pequena Aléxia Vitória Alves dos Santos, 5, uma das netas do José Cícero, que já estava arrumada, de vestido tomara que caia e um batom nos lábios, pronta para ir para a escola. Ela chama a nascente de “minha piscininha”: “Gosto de brincar na água. Não jogo lixo e cuido muito bem dela, porque quero crescer junto com ela”, diz a miúda.

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Genivaldo Luiz França, Claudiane dos Santos e José Cícero Alves

Atrás de Alexia, vinha a avó, Marluze dos Santos Alves, 51. Para ela, uma nascente no jardim foi um “presente de Deus”. “Lembro-me que a nascente começou pequenina, mas com o tempo, foi crescendo. Sempre que alguém precisa de água para beber nós cedemos, não queremos só para a gente, queremos para todos. É um presente dos céus. Todos aqueles que têm nascentes em suas terras devem cuidar com carinho. É um legado para nossos filhos e netos”, ressalta.

montagem 2Marluze dos Santos Alves, sua neta Alexia e Antônio Melo

Alguns quilômetros à frente encontramos Valdomiro Santos Melo, que vinha a pé, carregando sacos de alimentos para seus animais. Durante 11 anos ele cuidou das suas terras e sempre observou o baixar das águas. Mas com as primeiras ações do projeto do CBHSF já consegue visualizar mudanças. “Sempre vi o rio cheio, mas de uns tempos para cá vem baixando. Agora, com os cercamentos, os bichos não podem mais bagunçar, nem os homens. Depois da plantação das mudas aí é que vai ter mais água mesmo. Já consigo ver um novo futuro para os meus filhos e netos”.

A medida que o sol ia se pondo e os últimos raios iam desaparecendo do horizonte eis que surge Antônio Melo, puxando um burrinho morro acima. Dono de uma nascente em suas terras ele trabalha na agricultura há mais de 55 anos: “Acho justo que todas as nascentes sejam preservadas, sem nascentes e sem água nós não somos ninguém”.

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Publicado em segunda-feira, 8 de maio de 2017