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01/12/2017

O menino e o rio

O mineiro Ronaldo Fraga herdou do pai histórias do Velho Chico. Ao se tornar um dos estilistas mais conhecidos do país, foi lá ver de perto o que ainda existia daquele mundo fantástico. Da jornada, nasceu arte

O pai dizia: “Não conheço o mar, mas não me faz falta porque eu tenho o rio São Francisco”. E o menino imaginava o rio, não apenas um rio, mas um mundo encantado, misterioso, povoado por criaturas doutro mundo. O pai voltava das pescarias trazendo histórias de realismo fantástico misturadas aos peixes grandes, presentes e brinquedos. Até o nome das coisas alimentavam sua imaginação: Pirapora, boitatá, tutu marambá, ex-votos, uiara, maritaca, caboclo d’água, caixeiros viajantes, rendendê, carrancas, casca d’anta. Palavras mágicas, parte dos seres mitológicos. Como a cobra que ria. O tamanduá que abraçava, o rio que dormia. O Velho Chico se fazia bordado de palavras, tecia tramas na imaginação do menino que se tornaria um dos estilistas mais inovadores do mundo, não por acaso se inspirando na cultura popular brasileira para criar suas coleções: Ronaldo Fraga.

Seu pai, José Rodrigo Fraga, faleceu quando ele tinha 11 anos, deixando-lhe de herança todas estas histórias. Ele as manteve guardadas no baú de memórias, que por muito tempo receou abrir. E se abrisse e uma cobra pulasse lá de dentro, como na caixa de madeira que o pai um dia trouxe de presente? E se fosse tudo “história de pescador?” E se tivessem destruído aquele trecho da memória do seu pai e da sua? Como lidar com a inexorável destruição do meio ambiente, quando esta atravessa também os nossos afetos? Durante muitos e muitos anos, Ronaldo teve medo de conhecer o São Francisco. Ouvia tantas histórias de seca, de maus tratos, que não se arriscava a encarar a possível decepção. O tempo foi passando, a vontade guardada, até que ouviu falar da transposição. Chegara a hora de ver de perto a paisagem imaginária da infância, reviver o espírito do pai.

Recordar: trazer de volta ao coração

Foram dois anos viajando pelo São Francisco, entre 2007 e 2008. Começando pela nascente, em Casca D’anta. De lá, Pirapora. Navegou no vapor Benjamin. E, fascinado, viu que a mágica ainda estava ali. Seguindo, encantando-se, atingiu a foz. Terminada a viagem, decidiu espalhar a magia do rio. Da jornada, nasceu arte.

Em 2009, lançou a coleção de verão inteira inspirada no rio. Deu forma às cores das águas e dos barcos; recriou os olhos, escamas e espinhas dos peixes; a aurora e o pôr-do-sol, contou lendas, absorveu as cores do pequi, da rapadura, as texturas das embalagens de juta e das sacas de café, a delicadeza dos bordados, a estranheza das carrancas. A coleção de afetos pelo Velho Chico se transformou na coleção do verão daquele ano. Seu rio imaginário se tornou real em corpos, corações e mentes de milhares de pessoas.

Mas, como dizem os ribeirinhos, quando se bebe do São Francisco, este nunca mais sai da gente. Ronaldo sentiu que tinha muito mais o que dizer. Nem tudo cabia numa coleção, nem tudo era de se vestir. Anos depois, realizou outro sonho: a exposição “O Rio São Francisco navegado por Ronaldo Fraga – Cultura Popular, Moda e História”.

Fotos da exposição “O Rio São Francisco navegado por Ronaldo Fraga – cultura popular, moda e história”

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Em dez ambientes, simulou um percurso pelo rio a bordo do imaginário Benjamim Guimarães. Recriou a paisagem da sua infância, misturada com a paisagem que vira, adulto: o cheiro e os sabores do mercado, as histórias de amor, as carrancas, a devoção das salas de ex-votos, as cidades submersas, os bordados, os mercados, as malas dos caixeiros viajantes, as redes, os barcos, as tramas dos tecidos.

O mundo encantado também ganhou vida em vestidos que cantavam, na voz de Maria Bethânia recitando “Águas e mágoas do São Francisco”, de Carlos Drummond de Andrade. Vestidos não para vestir, mas para ouvir. Um documentário do ator Wagner Moura relatou a história de Rodelas (Bahia), sua colonial cidade natal, inundada para a construção da hidrelétrica de Itaparica, nos anos 1970. O sal grosso espalhado pelo chão pedia proteção para o Velho Chico, e o cardume de peixes de garrafas PET e a sala de pescaria de espécies em extinção alertava sobre a importância da preservação do rio. O cheiro de pequi, coquinho azedo, farinha, tapioca, acarajé e cajá lembraram os mercados e sabores do Velho Chico, assim como uma sala cheia de malas antigas homenageava os caixeiros viajantes. A exposição bateu recorde de público no Palácio das Artes, principal casa de espetáculos de Belo Horizonte, e fez sucesso em diversas cidades brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Brasília, Pirapora, Juazeiro, Montes Claros e Ipatinga.

Ronaldo Fraga é hoje citado como um dos mais criativos designers brasileiros, cujo trabalho reduz a distância entre o “Brasil feito à mão” do Brasil industrial. Se somos um combinado de aprendizados e afetos, a magia do Velho Chico, trazida pelos casos do pai, certamente teve influência nisso. Pois, mais que um estilista, ele é um contador de histórias. Histórias brasileiras, que só um artista apaixonado pelo Brasil seria capaz de contar, criar e recriar.

Croqui da coleção de roupas de Ronaldo Fraga inspirado no Velho Chico

 

 

 

Por Christiane Tassis

 

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