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06/12/2017

“Francisco, Francisco”

Na literatura e na música, no cinema e nas artes plásticas, o Velho Chico percorre importantes obras de um célebre rol de artistas brasileiros

 “Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.  Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem”, disse certa feita o escritor mineiro João Guimarães Rosa. Não é exagero afirmar: o Velho Chico é o rio que mais inspira os artistas brasileiros. Da nascente à foz, protagoniza histórias, lendas, músicas, poemas, em uma diversidade de manifestações artísticas, da cultura popular à erudita.

Na literatura 

Uma das maiores obras da literatura brasileira, “Grande Sertão Veredas” (1953), de Guimarães Rosa, tem o São Francisco e o sertão como metáforas: “Agora, por aqui, o senhor já viu: rio é só o São Francisco, o rio do Chico. O resto pequeno é vereda. E algum ribeirão”, escreveu ele. O rio atravessa o romance de diversas formas: é um elemento geográfico e também simbólico.

O narrador, Riobaldo, tem o rio no nome. Como um rio, Riobaldo traça o próprio rumo, sua travessia, mergulhando nas correntezas da alma. E é no São Francisco que ele e Diadorim se banham, adolescentes, numa passagem emblemática da história: a partir daquele dia tudo muda na vida de Riobaldo, que dirá: “O São Francisco partiu minha vida em duas partes”. O Velho Chico acompanha o personagem até o final do romance: nas últimas linhas, Riobaldo, “quase barranqueiro”, volta a mencioná-lo: “O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme…”.

Outro gigante da nossa literatura que homenageou o Velho Chico foi Graciliano Ramos. No conto “Canoa Furada”, presente na obra “Alexandre e outros heróis”, escrito nos anos 40, o autor alagoano narra a história do vaqueiro Alexandre, que faz a travessia do rio em uma canoa, literalmente, furada. “É o maior rio do mundo. Não se sabe onde começa, nem onde acaba, mas, na opinião dos entendidos, tem umas cem léguas de comprimento”, conta o personagem aos amigos.

Jorge Amado também se inspirou no São Francisco como cenário em “Seara Vermelha” (1946): castigados pelo sol do sertão, os personagens retirantes partem para Juazeiro, onde pegam um barco para São Paulo.

O romance de estreia do escritor mineiro Lúcio Cardoso, “Maleita” (1934), passa-se na Pirapora do final do século XIX, narrando as viagens dos tropeiros às margens do São Francisco e a fundação da cidade.

Na primeira parte do clássico “Os sertões” (1902), “Terra”, Euclides da Cunha estuda o povoamento das regiões banhadas pelo rio e a sua influência na formação étnica do sertanejo. Fala também sobre o papel do homem como agente da destruição, com as queimadas que arrasaram as florestas.

O poeta Carlos Drummond de Andrade não demonstrou muito otimismo sobre o futuro do Velho Chico: no poema “Águas e Mágoas do Rio São Francisco”, ele fala dos “desencantos, males, ofensas e rapinas que no giro de três séculos fazem secar e morrer a flor de água de um rio”.

Capa de livros inspirados no Rio São Francisco

Na música

O São Francisco também é cantado por grandes nomes da Música Popular Brasileira. Luiz Gonzaga fez o “Pajeú”, aquele que “vai despejar no São Francisco”, ficar famoso no Brasil inteiro, através da canção “Riacho do Navio”, que compôs com Zé Dantas, em 1955.

É da dupla Sá&Guarabira uma das mais conhecidas canções sobre o rio, “Sobradinho”, que cita as cidades inundadas e a população expulsa pela construção das usinas hidrelétricas de Sobradinho, na década de 1970. A letra fala também da profecia de Antônio Conselheiro, de que “o sertão vai virar mar o e o mar irá virar sertão”.

Em 1984, Caetano Veloso tratou simbolicamente da rivalidade entre Juazeiro e Petrolina em “O ciúme”: “Velho Chico vens de Minas / De onde o oculto do mistério se escondeu / Sei que o levas todo em ti, não me ensinas / E eu sou só, eu só, eu só, eu”.

Mais recentemente, em 2011, Geraldo Azevedo, nascido nas margens pernambucanas do rio, fez o álbum temático “Salve o São Francisco”, com a participação de Djavan, Maria Bethânia, Dominguinhos, Geraldo Amaral, Alceu Valença, Ivete Sangalo, Moraes Moreira, também nascidos em estados banhados pelo Velho Chico e Fernanda Takai que nasceu no Amapá.

Maria Bethânia viajou pelo universo folclórico e afetivo das águas dos rios do interior do Brasil em seu CD “Pirata”, sem se esquecer, é claro, do Velho Chico. Na bela “Francisco, Francisco”, canta “barrancos, carrancas, paisagens, tantas águas corridas, lágrimas escorridas, despedidas, saudades”. A canção encerrou a novela global “Velho Chico”, de Luiz Fernando Carvalho, num adeus emocionado ao ator Domingos Montagner, que interpretou o personagem “Santo”, levado pela correnteza do rio num trágico acidente que lhe custou a vida, na região de Piranhas (AL).

No cinema

A região de Piranhas também serviu de cenário para filmes emblemáticos do cinema brasileiro. Em 1979, a “Caravana Holidei”, do filme “Bye Bye Brasil”, de Cacá Diegues, teve a sua primeira parada por ali.

“O baile perfumado”, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas (1997), um dos marcos da chamada retomada do cinema nacional, aborda o cangaço e mostra um sertão verde, à beira do Rio São Francisco. Uma das cenas mais marcantes do filme é uma tomada aérea sobre o cânion do rio São Francisco, ritmada pela trilha de Nação Zumbi.

Em Piranhas também foram rodadas cenas das novelas “Cordel Encantado” e “Velho Chico”, e a minissérie “As Brasileiras – o Anjo de Alagoas”, da TV Globo. Já a minissérie global “Amores Roubados” aproveitou a exuberância das parreiras, adegas e vinhos do Vale do São Francisco em seu cenário.

No filme “O espelho d’água”, dirigido por Marcus Vinícius César (2004), Fábio Assunção é um fotógrafo em crise que decide viajar pelo rio São Francisco, quando conhece as lendas do rio e as pessoas que dependem dele para sobreviver.

Já “Girimunho (2011)”, de Clarissa Alvarenga e Helvécio Marins, tem uma abordagem mais intimista. Passado em Minas, na região de São Romão, o filme conta a história de duas mulheres que acompanham os redemoinhos do São Francisco, onde o tempo parece andar ao ritmo do rio.

Muitos documentários foram feitos ao redor da bacia – o São Francisco é um manancial de histórias e pessoas cujas vidas “dão um filme”. No documentário “Cinco vezes Chico – o velho e sua gente” (2015), cinco diretores – Gustavo Spolidoro, Ana Rieper, Camilo Cavalcante, Eduardo Goldestein e Eduardo Nunes – fazem uma jornada afetiva pelas águas e histórias das comunidades ribeirinhas, em cada um dos cinco estados banhados pelo rio.

Poster do filme Bye Bye Brasil

Na fotografia

As paisagens do São Francisco inspiraram importantes fotógrafos, como João Zinclair, Cláudio Edinger, José Caldas, Cafi, Adriano Gambarini, Miguel Aun, entre outros. Os belorizontinos Leo Drumond e Gustavo Nolasco viajaram por toda bacia, fotografando e colhendo relatos para o livro “Os Chicos – Prosa e Fotografia”. O trabalho foi vencedor do prêmio Jabuti, em 2012.

Nas artes plásticas e no design 

As carrancas, expressão única do Velho Chico, surgiram no Médio São Francisco por volta de 1880 e tornaram-se verdadeiras obras de arte nas mãos de escultores como Mestre Afrânio (final do século XIX, Barreiras, BA) e Mestre Guarany (1882-1985, Santa Maria da Vitória, BA).

A ceramista popular pernambucana Ana das Carrancas (1923-2008) criou singularíssimas carrancas de barro com olhos vazados, em homenagem ao seu marido, que era deficiente visual. De origem humilde, suas obras ganharam reconhecimento nacional e internacional. Em Petrolina há hoje um museu com o seu nome, o “Centro de Arte e Cultura Ana das Carrancas”.

Ao longo de toda a bacia, são encontradas esculturas em madeira, assim como o bordado, com a diversidade e a riqueza de técnicas como rendendê, ponto-cruz e “boa noite”, exclusivo da Ilha do Ferro (AL).

Em Pirapora, a família do “Matizes Dumont” borda o rio, as águas, o curupira, o barco, as carrancas e os peixes do São Francisco, que encantam pela singularidade e riqueza de detalhes. Maria Bethânia, Portinari, Rubem Alves, Jorge Amado e Marina Colasanti foram alguns dos artistas que os escolheram para ilustrar suas capas de livros e discos. As bordadeiras do São Francisco também inspiraram os “Irmãos Campana”, um dos designers brasileiros de maior projeção global. Eles a convidaram para serem protagonistas da coleção “Retratos Iluminados”, cujas belas luminárias exibem os rostos bordados e iluminados das artesãs.

Mesmo com a diversidade de autores e propostas, há um denominador comum nas obras que tem o rio São Francisco como fonte de inspiração: elas falam e mostram um Brasil real, profundo, verdadeiro. São obras que nascem de sentimentos que só os brasileiros conhecem, como um espelho que reflete nossa identidade e cultura mais genuína.

Ariano Suassuna, um dos defensores da cultura brasileira autêntica, costumava citar o crítico Alceu Amoroso Lima em seus discursos: “Do Nordeste para Minas corre um eixo que, não por acaso, segue o curso do São Francisco, o rio da unidade nacional. A esse eixo o Brasil tem que voltar de vez em quando, se não quiser se esquecer de que é Brasil”.

 

Por Cristiane Tassis

 

 

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